De campeão inglês ao risco de colapso: Leicester enfrenta crise histórica e ameaça queda à terceira divisão

Escrito em 10/02/2026
Gustavo Ferreira - Jogo de Hoje

Dez anos após o título da Premier League, clube perde pontos na Championship por irregularidades financeiras e vê futuro esportivo em risco

 



"3 anos, 200 milhões (de libras) perdidos, 2 rebaixamentos": torcedores do Leicester protestam — Foto: Getty Images

 


Uma década depois de protagonizar uma das maiores façanhas da história do futebol mundial, o Leicester City vive um dos momentos mais delicados de sua trajetória. Campeão da Premier League em 2015/16, o clube agora luta para evitar o rebaixamento à terceira divisão do futebol inglês após ser punido com a perda de seis pontos na Championship por descumprir regras financeiras da liga.

A sanção aplicada na última semana empurrou o Leicester para a 21ª colocação, com 32 pontos, fora da zona de rebaixamento apenas pelo critério de saldo de gols. A punição está relacionada à violação das regras de lucro e sustentabilidade, avaliadas em um ciclo de três anos encerrado na temporada 2023/24.

 

Da estabilidade ao declínio

Após a conquista histórica, o Leicester conseguiu se manter competitivo por alguns anos, com participações relevantes na Premier League, planejamento esportivo sólido e a permanência de nomes importantes do elenco campeão, como Jamie Vardy, que deixou o clube apenas em 2025. Em 2021, a equipe voltou a levantar um troféu ao conquistar a Copa da Inglaterra.

No entanto, a queda de rendimento esportivo acabou desencadeando uma série de decisões financeiras que comprometeram o equilíbrio do clube. Para entender o cenário atual, o ge ouviu o economista César Grafietti, especialista em gestão de clubes.

 

"Temos uma composição de erros esportivos que levaram a problemas financeiros. O Leicester foi rebaixado em 2022/23 e novamente promovido à Premier League em 23/24. A disputa da 2ª divisão inglesa é duríssima em termos financeiros, porque todos os clubes gastam muito além da capacidade para conseguirem um lugar na elite. A tese, equivocada e que se repete no Brasil, é de que é preciso gastar para aumentar competitividade, e isso trará mais dinheiro com conquistas, e levará o clube ao equilíbrio. Não foi o que ocorreu"
— Economista César Grafietti, sobre crise e queda do Leicester.

 

Folha salarial inflada e novo rebaixamento

Quando caiu para a Championship em 2023, o Leicester possuía a sétima maior folha salarial da Premier League — a mais alta já registrada por um clube rebaixado. Mesmo após uma redução de 48%, os gastos continuaram sendo os maiores da história da segunda divisão inglesa.

Promovido novamente em 2023/24, o clube fez uma campanha desastrosa na elite na temporada seguinte, terminando com apenas 25 pontos, 47 gols de saldo negativo e uma diferença de 17 pontos para o primeiro time fora da zona de rebaixamento.

 

"O Leicester volta a disputar a Premier League vindo de um grande prejuízo e monta uma equipe cara e pouco competitiva para tentar permanecer na elite. O resultado esportivo foi muito ruim, terminando com apenas 25 pontos e um saldo negativo de 47 gols. O clube é novamente rebaixado e disputa a 2ª divisão mantendo os custos elevados, elenco desequilibrado, desempenho esportivo ruim, e receitas muito menores. Resultado é o que vemos agora"
— analisa César Grafietti.

 

Dirigentes pressionados e protestos

Internamente, a responsabilidade pela crise tem sido atribuída ao presidente Aiyawatt “Top” Srivaddhanaprabha, ao diretor de futebol Jon Rudkin e à ex-CEO Susan Whelan, que deixou o cargo em outubro. Filho de Vichai Srivaddhanaprabha, fundador da King Power e antigo dono do clube, “Top” assumiu a presidência em 2018.

Desde o último rebaixamento, torcedores têm promovido protestos frequentes no King Power Stadium, cobrando mudanças profundas na gestão e no planejamento esportivo.

 

Impacto financeiro do rebaixamento

Um dos principais erros apontados foi a falta de adaptação à brusca queda de receitas após o rebaixamento. Enquanto clubes da Premier League recebem entre 100 e 110 milhões de libras em direitos de transmissão, equipes da Championship arrecadam cerca de cinco milhões. Patrocínios, bilheteria e valores de ingressos também sofrem reduções significativas.

 

"Eles gastaram muito em contratos para tentar acompanhar seus rivais, mas contrataram mal e sua folha salarial inflada, que era a sétima maior da Premier League na época do rebaixamento, tornou-se um peso morto, arrastando o clube para a zona de violação das regras financeiras e restringindo qualquer investimento futuro"
— analisa Rob Tanner, jornalista do The Athletic, que cobre o Leicester desde 2016.

 

Crise esportiva dentro de campo

O impacto da punição também é sentido no desempenho recente. O Leicester não vence há cinco partidas na Championship, acumulando quatro derrotas e um empate. O técnico Marti Cifuentes foi demitido há duas semanas, e o clube segue sem um treinador efetivo.

Enquanto a diretoria busca um novo comandante, o time vem sendo dirigido interinamente por Andy King, ex-jogador e integrante do elenco campeão de 2015/16 — símbolo de um passado glorioso que hoje contrasta com a dura realidade vivida pelo clube.

 


Fonte – Jogo de Hoje 360°


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