Técnico perdeu respaldo no vestiário, enfrentou resistência a mudanças no dia a dia, não consolidou um modelo de jogo e acabou desligado após derrotas marcantes
Xabi Alonos desnorteado com o passeio do PSG no primeiro tempo contra o Real Madrid — Foto: Sven Hoppe/picture alliance via Getty Images
A saída de Xabi Alonso do comando do Real Madrid pode até causar impacto à primeira vista, mas, nos bastidores do clube, o desfecho já era tratado como provável. Desde a chegada ao Santiago Bernabéu, o treinador enfrentou dificuldades para administrar o elenco, implantar sua filosofia e transformar intenção em resultado dentro de campo. O acúmulo de desgastes, somado à falta de regularidade do time, acelerou a decisão da diretoria.
Nem mesmo o melhor momento da equipe sob o comando de Alonso — quando o Real emplacou sete vitórias consecutivas entre agosto e setembro — foi suficiente para estabelecer estabilidade. Contratado no fim de maio de 2025 com vínculo até 2028, o treinador viu o ambiente se deteriorar rapidamente.
Desgaste no vestiário e perda de apoio
A principal fonte de atrito foi a condução do cotidiano do grupo. Parte do elenco estranhou a postura rígida adotada por Xabi Alonso, especialmente por se tratar de um ex-jogador do próprio clube. O técnico implementou normas disciplinares que quebraram práticas consolidadas durante a era Carlo Ancelotti, como a restrição ao uso de celulares em determinados momentos.
Outra medida que causou incômodo foi a obrigatoriedade de retorno imediato da delegação após jogos fora de casa. Antes, os atletas tinham liberdade para permanecer na cidade da partida e se reapresentar no dia seguinte, o que facilitava visitas a familiares e compromissos pessoais.
As discordâncias extrapolaram o extracampo e chegaram às decisões técnicas. O episódio mais simbólico envolveu Vinicius Junior, que demonstrou insatisfação ao ser substituído no clássico contra o Barcelona, pela La Liga. O atacante chegou a pedir desculpas publicamente, mas não citou o treinador.
Os números ajudam a ilustrar o desconforto: Vinicius foi substituído em 20 dos 33 jogos (60%) sob o comando de Alonso, desde a Copa do Mundo de Clubes. Na temporada anterior, com Ancelotti, isso ocorreu em 19 de 52 partidas (36,5%).
Na mesma semana do atrito com Vini Jr, veio à tona que o problema não era isolado. Parte significativa do elenco demonstrava insatisfação com a condução diária da comissão técnica. O zagueiro Rüdiger foi um dos que externaram incômodo.
Valverde também se posicionou. Antes da partida contra o Kairat, pela Champions League, afirmou que "não nascera para jogar de lateral direito", função em que foi frequentemente improvisado. Camavinga, por sua vez, declarou à Telefoot que não era normal atuar fora de posição por um longo período.
Rodrygo também enfrentou perda de espaço e virou alvo de questionamentos. Apesar do interesse de outros clubes europeus, o atacante optou por permanecer, conversou diretamente com o treinador e apresentou melhora de rendimento. Ainda assim, o contraste é claro: foi titular em 40 dos 54 jogos em 2024/25 e já igualou nesta temporada o número de partidas iniciadas no banco (14).
Outro caso emblemático foi o de Mastantuono. Contratado aos 18 anos, o atacante começou como titular em 10 partidas entre agosto e outubro, mas perdeu espaço repentinamente, sem justificativas claras.
No elenco atual, apenas Mbappé manteve status absoluto. O francês lidera a artilharia da La Liga e da Champions League, com 29 gols em 25 jogos na temporada.
Às vésperas da semifinal da Supercopa da Espanha, Bellingham afirmou que "o vestiário estava unido", citando comissão técnica e jogadores, apesar dos "altos e baixos". Esse foi o discurso oficial. Após a demissão, Mbappé, Rodrygo e outros atletas publicaram mensagens de despedida.
O inglês também deixou claro que decisões sobre o futuro do treinador não cabiam a ele e destacou que, no Real Madrid, qualquer instabilidade ganha proporções maiores quando os resultados não são perfeitos.
Falta de padrão e dificuldade para consolidar ideias
Xabi Alonso chegou ao clube respaldado pela diretoria e com um plano claro: priorizar o coletivo acima das individualidades e moldar os jogadores ao sistema. A execução, no entanto, esbarrou em obstáculos.
Lesões pesaram desde o início. O Real lidou com ausências importantes, como Éder Militão, Alexander-Arnold, Carvajal e Endrick. Um dos pontos decisivos para o acordo pela saída do treinador foi a pressão da diretoria pelo retorno do preparador físico Antonio Pintus, segundo a imprensa espanhola. Alonso se opunha à ideia e não atribuía as lesões às suas exigências táticas.
O tempo curto para ajustes também jogou contra. Mesmo com reforços contratados, o desempenho ficou aquém do padrão histórico do clube. O objetivo de conquistar a Copa do Mundo de Clubes não foi alcançado. Sem Mbappé em boa parte do torneio, o treinador promoveu mudanças constantes na escalação, não encontrou encaixe e viu o time ser goleado pelo PSG por 4 a 0 na semifinal.
Ao chegar a janeiro, Xabi Alonso ainda não havia definido um modelo claro: linha de três ou quatro zagueiros, pressão alta ou bloco baixo — nada se consolidou. A falta de identidade incomodou diretoria e torcida, que chegou a vaiar a equipe em diferentes partidas.
Os números defensivos refletem o problema: 30 gols sofridos em 28 jogos, média superior a um por partida, com o time vazado em 64,2% dos compromissos na temporada.
Individualmente, alguns protagonistas perderam impacto. Bellingham, por exemplo, caiu de 23 gols e 13 assistências em sua primeira temporada para apenas cinco gols e quatro assistências em 23 jogos na atual, atuando mais distante da área.
O último jogo sob comando de Alonso simbolizou o fim do ciclo: domínio do Barcelona na final da Supercopa da Espanha, em mais uma atuação abaixo do esperado em um confronto decisivo.
Derrotas marcantes selaram o destino
O ponto de virada ocorreu na goleada sofrida para o Atlético de Madrid por 5 a 2, na sétima rodada da La Liga. O resultado encerrou os 100% de aproveitamento e escancarou fragilidades.
Na sequência, veio a derrota para o Liverpool na Champions League, em Anfield, com Courtois evitando um placar mais elástico. Apesar da liderança mantida em novembro, a imprensa espanhola passou a questionar a falta de “alma” da equipe.
As derrotas em casa para Celta de Vigo e Manchester City aprofundaram a crise. As coletivas passaram a girar em torno da possibilidade de demissão. A vitória sobre o Atlético na semifinal da Supercopa trouxe alívio momentâneo, mas a quinta derrota nos últimos seis clássicos contra o Barcelona encerrou qualquer esperança de retomada.
Xabi Alonso deixa o Real Madrid após 34 partidas, com 24 vitórias, quatro empates e seis derrotas, 72 gols marcados e 38 sofridos. O time ocupa a segunda colocação de La Liga, quatro pontos atrás do Barcelona, e aparece em sétimo lugar na fase de liga da Champions League, dentro da zona de classificação direta às oitavas.
O comando da equipe passa agora para Álvaro Arbeloa, ex-lateral do clube e treinador do Real Madrid Castilla. O próximo compromisso já acontece nesta quarta-feira, contra o Albacete, pela Copa do Rei.
Fonte – Jogo de Hoje 360°



